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Volkswagen Gol 2°geração, quando o fabricante alemão escalou um novo artilheiro

Com linhas arredondadas e mais espaço interno, o Gol de segunda geração mantinha a robustez e o prazer ao dirigir, qualidades que tornaram líder de vendas

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Por Anderson Nunes


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Volkswagen Gol 2°geração, quando o fabricante alemão escalou um novo artilheiro

Corria o ano de 1980, era uma vez um carro que fracassou em vendas. O projeto Gol saía das pranchetas para as ruas e, com fraco motor 1,3 litro boxer refrigerado a ar que desagradava em desempenho, o modelo encalhava nas concessionárias. Isso desencadeou dentro da Volkswagen uma revisão total no programa de lançamento do modelo, com a adoção do motor boxer de 1,6 litro a ar e a posteriori o consagrado motor arrefecido a água que acabou por impulsionar as vendas do hatch.  

Pouco anos depois, em meados de 1994, após arrebatar o título de veículo mais vendido no Brasil por sete anos consecutivos, o Gol preparava a cena para seu sucessor, identificado internamente como Projeto AB9, que herdava um nome consagrado, mas também a responsabilidade de continuar a manter 60% das vendas do fabricante no país. Entre as duas gerações, muitas histórias e inovações, e mais de 1,4 milhão de unidades produzidas. 

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Embora o Gol continuasse em curva ascendente de vendas naquele momento, a Volkswagen sabia que o mercado tinha ganho um concorrente de peso. Naquele início de 1994, a Chevrolet lançava o Corsa, e a reboque vieram filas de espera, disparando a cobrança do ágio. Poucos carros causaram tanto frenesi quanto o Chevrolet Corsa.  

Todo esse alvoroço em torno do modelo fez com que até mesmo o vice-presidente da GM, André Beer, aparecesse em rede nacional pedindo calma: a produção do compacto carro de linhas arredondadas logo seria normalizada e atenderia à demanda de um mercado. 

Para conter a escalada de sucesso do modelo da gravatinha, a Volkswagen foi ousada em sua estratégia. Além de investir 400 milhões de dólares no projeto, o fabricante alemão antecipou o lançamento do modelo AB9 em seis meses, mantendo em linha em linha também o Gol “quadrado” na versão de motor 1 litro. Essa jogada tinha como intenção manter boas vendas do velho Gol, principalmente aos frotistas e clientes que queriam somente um carro barato, até a produção do novo Gol ser estabilizada, e quando isso acontecesse a VW colocaria nas ruas diariamente 920 unidades do modelo.  

Para atingir tal meta de produção, a fábrica de Taubaté (SP), havia sido remodelada completamente em um processo que levou 18 meses e exigiu investimentos de 200 milhões dólares. Esse montante compreendeu a instalação de modernos computadores, robôs (61 no total) e ferramentas específicas, que incluíam 20 sistemas de transporte inteligentes – carrinhos que se locomoviam sozinhos.   

DESENVOLVIMENTO DO AB9 

Volkswagen Gol 2°geração, quando o fabricante alemão escalou um novo artilheiro

A ideia de fazer uma nova geração do Gol começou lá dos idos de 1989. Na ocasião os dirigentes da VW queriam saber o que agradava e desagradava os clientes do modelo. Uma extensa pesquisa foi realizada, depois de coletado os dados, tais informações foram remetidas aos departamentos de engenharia e design. Durante as análises os donos de Gol apontaram falhas como o para-brisa próximo ao motorista, pouco espaço para as pernas e cabeça dos ocupantes do banco traseiro, além do diminuto porta-malas. Já a robustez do conjunto e a mecânica de fácil manutenção foram citadas entre as qualidades.  

Volkswagen Gol 2°geração, quando o fabricante alemão escalou um novo artilheiro

Após tabulada toda a pesquisa foram definidas três vertentes ao projeto AB9 – conforto, aerodinâmica e estilo. A metamorfose foi radical. Mantendo, basicamente, o formato hatch e dimensões iguais ao do seu antecessor, o novo Gol ganhou mais espaço interno e linhas modernas por fora. Para aumentar o conforto dos passageiros no habitáculo, o teto subiu 6,1 cm, largura foi aumentada em 3,9 cm. O motorista foi beneficiado com a nova disposição dos pedais e o para-brisa foi deslocado para a frente em 12 cm. A nova plataforma possibilitou o aumento da distância entre-eixos em 11 cm, passando para 2,46 metros, conferindo mais espaço para as pernas dos ocupantes do assento traseiro.  

Para ampliar o acanhado porta-malas, projetou-se um compartimento para o estepe sob o assoalho, com isso a capacidade de carga saltou de 146 para 269 litros. Reorganização do pneu sobressalente permitiu que o tanque de combustível fosse instalado à frente do eixo traseiro, deixando em uma área mais segura contra impactos, importante detalhe de segurança. A capacidade aumentou de 47 para 53 litros. Outro item de segurança adotado foi o para-brisa e vigia traseira colado a carroceria.  

As suspensões também passaram por ajustes para se adequar aos novos valores de peso do novo Gol. O conforto foi aumentado pelos amortecedores com stop hidráulico. Foram adicionados batentes de poliuretano, que absorviam de maneira progressiva os impactos do final de curso sofridos pela suspensão. Já a bitola traseira ficou menor que a dianteira, o que quebrou uma tradição nessa família de veículos. Os freios eram discos na dianteira e a tambor na traseira. As rodas de aço aro 13 eram cobertas com calotas e pneus medidas 155/70, na versão CLi, já o modelo GLi, trazia pneus na medida 175/70 em rodas de liga leve aro 13. As rodas de liga com desenho exclusivo aro 14 pol cobertas com pneus 185/60 equipavam o GTI. 

MOTOR LONGITUDINAL  

Contrariando a tendência em projetos de automóveis compactos, o motor do novo Gol foi instalado em posição longitudinal. O mais curioso foi que neste carro isso não chegou a ser estranho, devido à harmonia do desenho do veículo em um todo. Para chegar ao artifício o conjunto motriz foi recuado cerca de três centímetros, o que obrigou as semiárvores do câmbio a ficarem ligeiramente voltadas para trás. Além disso, o radiador, sempre do lado esquerdo, foi recuado e inclinado para trás também.  

Também foi possível notar que a raiz do para-brisa ficou mais alta, o que permitiu mais inclinação do capô. Todas essas medidas levaram a uma dianteira visivelmente mais curta (o balanço dianteiro não mudou), típica de carros com motor transversal. Todo esse rearranjo mecânico possibilitou um menor índice de arrasto aerodinâmico, que passou de Cx 0,45 para 0,35. O trem de força nesta posição permitiu manter o mesmo e excelente comando de câmbio dos Gol anteriores.  

Na versão GTI o visual era mais elaborado com a inclusão de faróis com duplo defletor, faróis de longo alcance no para-choque, capas dos retrovisores pintadas na mesma tonalidade da carroceria, largas saias laterais e defletor acima do vidro traseiro com a terceira luz de freio inclusa.  

A motorização manteve-se a mesma, além de todos estarem equipados com injeção eletrônica. Os motores AE 1,0 e AP 1,6 e 1,8, adotavam injeção monoponto digital e sensor de oxigênio, mas isso não implicou em maior potência. O AE continuava com 50 cv e 7,3 m.kgf, o 1,6 tinha 76 cv e 12,3 m.kgf e o 1,8 litro estava com 91 cv e 14,3 m.kgf, sempre a gasolina, enquanto o GTI 2,0 litros com injeção multiponto digital da marca FIC desenvolvia 109 cv e 17,0 m.kgf de torque.  

INTERIOR MODERNIZADO 

O interior modernizado seguiu os princípios de ergonomia e bem estar a bordo. O painel recebeu linhas arredondas, com efeito cockpit (envolvente), com comandos voltados ligeiramente ao motorista. O quadro de instrumentos ganhou uma nova disposição dos medidores e de grafismo, conferindo um visual bem típico da VW. As alavancas de setas e limpadores de para-brisa foram redesenhadas e seu acionamento ficou mais preciso. Já o console central teve um rádio instalado em uma posição elevada, tendo abaixo os difusores de ar, na sequência um conjunto de teclas e os comandos de ventilação.  

Na versão GTI, o Gol contava com bancos esportivos Recaro, volante de três raios com desenho exclusivo, painel de instrumentos com fundo branco dotado de conta-giros e computador de bordo com seis funções. O rádio toca-fitas e encosto do banco traseiro bipartido eram equipamentos de série. Os opcionais resumiam-se ao ar-condicionado, vidros com fechamento automático com as portas e rádio toca-CD.  

Em 1996 foi um ano de transição para a família Gol 1000, pois chegava ao fim a produção do Gol 1000 “quadrado”, e iniciava-se as vendas do Gol 1000 de nova geração. Batizado de Gol i, vinha de série com dois retrovisores, para-choques na cor preta, rodas de aço de 13 pol com pneus 155\80 e não havia frisos nas laterais. O interior era franciscano, o painel de instrumentos continua somente o básico, como velocímetro, nível de combustível e temperatura do motor, volante espumado de dois raios, laterais de portas em plásticos e ventilador de três velocidades.   

Em maio de 1996 surgia o Gol TSi, de apelo esportivo e que ficava situado entre o GLi e o GTI. Tratava-se de um modelo com roupagem esportiva, como características tinha faróis de duplo defletor, aerofólio na vigia traseira, rodas de liga leve aro 14 pol cobertas com pneus de perfil baixo 185\60 e lanternas traseiras fumês. Internamente trazia bancos Recaro, volante de três raios, direção com assistência hidráulica e rádio toca-fitas de série. Opcionais eram vidros, travas e retrovisores elétricos, além do ar-condicionado. No seguinte o TSi ganhava o motor AP 2,0 litros de oito válvulas.  

O ano de 1997 também marcou uma importante novidade na família Gol. Com o fim da união da Autolatina, foi preciso substituir o motor de origem Ford, e a solução foi desenvolver o trem de força batizado de AT 1000. Para produzi-lo a VW fez a inauguração da moderna fábrica de motores de São Carlos (SP). O motor AT tinha como características principais o comando de válvulas no cabeçote e a injeção eletrônica digital. Fez sua estreia na versão 1000i Plus, sua potência era de 54 cv e torque de 8,3 m.kgf.  

Para cumprir as novas normas de emissão de poluentes, outra novidade adotada para a linha 1997 foi à adoção da injeção eletrônica multiponto (identificada como Mi) da Magnetti-Marelli nos motores 1,6 e 1,8 litro, com aumento de potência e torque: o primeiro passava a 89 cv e 13,2 m.kgf, e o segundo, a 98 cv e 15 m.kgf, sempre a gasolina. Em setembro daquele ano, o motor de 1,0 litro passava a ser oferecido com cabeçote de duplo comando e 16V, que o deixava na liderança da classe em potência e torque: 69 cv e 9,3 m.kgf.  

Passados cinco anos após o lançamento do Gol de II Geração, o mercado de compactos havia amadurecido e a chegada de novos concorrentes como Fiat Palio e Ford Fiesta fez com que a VW agisse rápido para tornar o Gol ainda mais competitivo diante dos rivais. Em abril de 1999, era lançado o Gol Geração III, que adotava formas mais retilíneas, além de um interior mais refinado. Duplo airbag e freios com o sistema ABS figuravam como opcionais.  

Para não perder a liderança de mercado, a VW aplicou a velha tática de manter a geração anterior em produção já que seus custos já estavam amortizados. Em meados de 1999 era lançado o Gol Special, que mantinha as linhas do modelo de 1995. O Special era oferecido somente com carroceria de duas portas e seu interior era bastante despojado. Seu único opcional era a pintura metálica.   

GOL DE ASTROS  

Há 25 anos a Volkswagen do Brasil lançava o Gol de segunda geração, conhecido popularmente como “bolinha”. O modelo foi um dos mais vendidos e hoje ainda são encontrados com facilidade no mercado de usados. Os carros que foram conservados ao longo dessas últimas duas décadas já começam a despertar a atenção dos colecionadores. 

Um dos modelos mais emblemáticos do Gol AB9 foi o Rolling Stones, a primeira série especial da segunda geração do Gol. Lançada em janeiro de 1995 a versão fazia alusão à turnê “Voodoo Lounge”, da banda inglesa no festival Hollywood Rock 95, no Estádio do Morumbi em São Paulo, além da apresentação no Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro.   

Volkswagen Gol 2°geração, quando o fabricante alemão escalou um novo artilheiro

Era baseado na versão CLi 1,6 litro e tinha como diferenciais os adesivos externos (tampa e coluna traseira) com as inscrição “Rolling Stones” e “Voodoo Lounge”, antena no para-brisa e rádio toca fitas Volks Mid. As rodas aro 13 polegadas eram cobertas com pneus 175\70. Outro diferencial era que o comprador ganhava uma fita K-7 que continha entre outras canções a música Start Me Up, trilha sonora da propaganda do modelo na TV. 

O Gol Rolling Stones que ilustra nossa reportagem pertence ao empresário Murilo Marquesin, 43 anos, da cidade de Louveira (SP). Marquesin já esteve presente nas páginas da seção Do Fundo do Baú com uma impecável Ford Ranger XL 1995. Agora nos brinda com o Gol na tonalidade Vermelho Sport, com apenas 54 mil km rodados. O modelo traz todos os adesivos e o rádio toca-fitas original de fábrica, bem como as bonitas calotas.  

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