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Daewoo Espero DLX, modelo sul-coreano com forte participação europeia tanto no desenho como na mecânica

Ao somar tecnologia própria e da GM, aliada ao estilo Bertone, sedã sul-coreano demonstrou ser eficiente e confortável

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Por Anderson Nunes


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O que nós conhecemos hoje como Daewoo Motors, na verdade é somente uma fração de uma história empresarial que nos remonta ainda no período da década de 1930. A National Motor foi fundada em 1937, na cidade de Bupyeong-gu, província de Incheon, então República da Coréia. Tinha como finalidade prestar serviços de manutenção e reforma nos veículos do exército coreano, tarefa esta mantida até início dos anos de 1960.  

O nome foi alterado para Saenara Motors em novembro de 1962. A primeira empresa automobilística da Coréia do Sul, a Saenara, era equipada com modernas instalações e foi estabelecida depois que a Política de Promoção da Indústria Automobilística foi anunciada pelo governo sul-coreano. A Saenara fez um acordo com a Datsun para montar e vender o Bluebird PL310. Posteriormente foi adquirida pela Shinjin Industrial em 1965, que mudou sua denominação para Shinjin Motors, após estabelecer cooperação com a Toyota. 

A Toyota retirou-se da aliança em 1972, tendo passado o bastão para a General Motors que fez sua primeira entrada em solo sul-coreano e, é claro, o nome mudou para General Motors Korea. Devido à crise do petróleo de 1973, a GM decide sair da sociedade e a empresa é renomeada novamente para Saehan Motor. Acumulando dívidas, em 1976 a Saehan é encapada pelo Banco de Desenvolvimento da Coréia. Porém, mesmo fora do controle acionário a GM manteve o acordo de parceria e de fornecimento de tecnologia.  

Foi em 1978 que o Grupo Daewoo - o segundo maior conglomerado da Coréia do Sul, depois da Hyundai, seguido pela LG e Samsung, que tinham cerca de 20 divisões e quase 290 subsidiárias – adquiriu a participação acionária da Saehan Motors, do Banco de Desenvolvimento da Coréia. Entretanto foi somente em janeiro de 1983 que o Grupo Daewoo ganhou o controle da empresa e, sim, mudou o nome novamente agora para Daewoo Motors. 

OPEL COREANOS 

Ao adquirir o controle acionário da Saehan Motors, a Daewoo Motors manteve o catálogo de modelos baseados em versões da alemã Opel. O portfólio era composto pelo modelo Maepsy, a versão sul-coreana do Kadett C, que nada mais era do que o nosso Chevrolet Chevette e o Daewoo Royale (versão local do Opel Rekord E). Em julho de 1986 o Maepsy foi substituído pelo Daewoo LeMans, versão local do Opel Kadett E, modelo igual ao que tivemos aqui no Brasil.  

Kim Woo Choong, fundador do Grupo Daewoo, colocou em prática na metade dos anos de 1980 um plano de expansão internacional. A intenção era ganhar mercado nos Estados Unidos e Canadá, com um modelo de valor mais competitivo para brigar com os veículos japoneses. O modelo escolhido foi o compacto LeMans (sedã 4 portas), Racer (Hatch 3 portas) 5-Penta (Hatch 5 portas). Em mercados internacionais foram vendidos como o Pontiac LeMans, Asüna GT e SE, ou Passport Optima. Este carro foi produzido sem grandes alterações até fevereiro de 1997, já rebatizado como Cielo, sendo depois substituído pelo Lanos. 

NÃO É O QUE PARECE SER 

Após a boa recepção do Daewoo LeMans nos mercados externos, a marca sul-coreana vislumbrou a possibilidade de atuar no segmento dos carros médios. Em 1987 o departamento de marketing deu início aos primeiros estudos para conceber um carro que ocupasse essa lacuna, tendo como diferencial um visual distinto dos demais veículos sul-coreanos daquele tempo.  

Logo foi contatada a parceira Opel para colaborar no desenvolvimento do novo produto. Não houve, entretanto, acordo para a produção do carro, e o fato daria origem uma série de desentendimentos entre ambas as partes. Ao apostar em uma jogada ousada, a empresa sul-coreana aproveitando-se da parceria comercial que ainda estava de pé, tomou “emprestada” a plataforma do Opel Kadett E, para criar o seu novo três volumes.  

Em agosto de 1990, era apresentado o Daewoo Espero, primeiro modelo desenvolvimento integralmente pela fabricante sul-coreana, que trazia uma personalidade própria com elementos estéticos inspirados em carros europeus. Chamava a atenção de imediato o aspecto da dianteira sem a grade para o arrefecimento do motor, em seu lugar era adicionada uma grande tomada de ar no para-choque, o que contribuiu para o reduzido valor aerodinâmico de Cx 0,29. 

O Espero foi construído sobre a plataforma do Daewoo LeMans. Do compacto vieram motor, suspensão dianteira e traseira e sistema de freios, componentes estes que já testados e aprovados na época pelo excelente desempenho e dirigibilidade. Para a Daewoo era boa uma jogada investir nesta arquitetura, pois a plataforma do modelo LeMans já estava paga, o que amortizava os custos de desenvolvimento.  

Para se tornar um modelo médio, o Daewoo Espero precisou passar por algumas alterações na estrutura, a começar pelas dimensões. Em comparação com o irmão LeMans sedã, o Espero tinha um porte mais avantajado de 4,61 metros de comprimento contra 4,21 m. A largura passava para 1,71 metros contra 1,66 m. O aumento se aplicou também na distância entre-eixos que foi esticada em 10 cm, indo de 2,52 metros de comprimento no LeMans sedã, para 2,62 m no Espero.  

O visual inovador concebido pelo estúdio italiano Bertone desempenhou um papel importante na mudança de imagem dos veículos sul-coreanos ao redor globo. A princípio para refinar o estilo lateral, foi pensando adotar o conceito de seis janelas. Entretanto no modelo de produção foram adotadas duas pequenas barras pretas naquela que seria a terceira janela, o que acabou por prejudicar a elegância do conjunto.  

A ergonomia também se fazia presente no interior do veículo. A começar pelo estilo envolvente e suave que conectava o painel às laterais de portas. Novas soluções foram adotadas, como as saídas de ar posicionadas no acabamento das portas. Próximo ao volante de três raios estavam pequenas teclas para acionar comandos como desembaçador do vidro traseiro, farol de longo alcance e pisca-alerta. O porta-malas podia transportar 470 litros de bagagem. Já o tanque de combustível tinha capacidade de 50 litros.   

VARIEDADE DE MOTORES 

Ao fazer sua estreia em 1990, o Espero tinha somente a opção do motor de 2,0 litros (Código C20LE) com potência de 100 cv a 5.400 rpm e torque de 16,2 m.kgf a 3.200 rpm, podendo ser acoplado ao câmbio manual de cinco marchas ou automático de quatro velocidades. Era um conjunto motriz adequado ao perfil do Espero, no entanto, o novo sedã não obteve boas vendas logo de início. Seus rivais Hyundai Elantra e a Kia Capital ofereciam motor de 1,5 litro, opção mais apreciada pelo consumidor local devido aos altos impostos. 

Para contornar a situação do Espero, a Daewoo introduziu em fevereiro de 1991 seu primeiro motor próprio, uma unidade de 1,5 litro de 16 válvulas, com potência de 100 cv. O conjunto mecânico, projetado com supervisão da britânica Lotus, foi classificado como adequado para a situação coreana, tinha característica do torque em baixa e média rotação, mas a velocidade final era prejudicada devido ao peso do Espero.  

Em abril de 1993 era apresentado o motor de 1,5 litro de oito válvulas que desenvolvia 90 cv. Externamente houve um rearranjo da disposição das luzes da lanterna traseira. Internamente os bancos foram redesenhados proporcionando uma melhor acomodação dos ocupantes. Os comandos dos vidros, travas, retrovisores e abertura do porta-malas migraram do console central para a lateral da porta do motorista. Em 1994, as novidades ficavam por conta da adoção de novos motores 1,8 de oito válvulas de 95 cv e 2,0 litros de oito válvulas 110 cv, ambos com injeção eletrônica multiponto. Para o motorista havia agora a opção do airbag. 

O programa de exportação do Espero começou em 1994 e representou cerca de um sexto do volume total da produção e os carros eram vendidos para Europa, América Latina e Sudeste Asiático. Em Taiwan, o Daewoo Espero alcançou grande popularidade e conseguiu bater em vendas o compatriota Hyundai Elantra. Já no Reino Unido, o Espero passou a ser comercializado em 1995, nos acabamentos GLXi, CDi e CDXi, podendo ser equipados com os motores 1,5 litro de duplo comando, ou 1,8 e 2,0 litros de comando simples, atrelados a transmissão manual de cinco marchas ou automática de quatro velocidades.  

A carreira comercial do Daewoo Espero chegou ao fim em dezembro de 1997, quando foi substituído pelo modelo Nubira. O primeiro modelo original da Daewoo, Espero, conseguiu unir em um só carro o conforto de um modelo de tamanho médio a um preço relativamente baixo de um veículo compacto. 

DAEWOO CHEGA AO BRASIL 

Em 28 de março de 1994, a Daewoo fazia sua estreia no mercado brasileiro, tendo como carro chefe, o Espero. A marca sul-coreana era representa aqui no país pela DM Motors, empresa criada pelo Grupo Verdi, que investiu um montante a época de 10 milhões de dólares. Inicialmente a rede contava com dez lojas instaladas em quatro capitais (seis em São Paulo, duas no Rio, uma em Recife e uma em Curitiba). 

Uma agressiva campanha de marketing foi posta em prática para atrair os compradores. Caso o cliente não ficasse satisfeito com o carro, a Daewoo receberia o veículo de volta até sete dias após a compra ou 1.000 km, o que ocorresse primeiro, e devolveria o dinheiro corrigido. E a estratégia deu certo, em seu primeiro ano de comercialização, o Daewoo Espero ficou entre os importados mais vendidos do país, lembrando que o carro importado mais vendido em 1994 foi o Fiat Tipo seguido do Renault 19.  

A tática para alcançar tal feito foi oferecer o Espero modelo DLX, em sete versões de acabamento, sendo que a mais sofisticada somava itens como câmbio automático, teto-solar elétrico, freios ABS e rádio com toca-CD. No tocante à mecânica todos os Esperos vendidos no Brasil foram oferecidos com o motor GM Família II de 2,0 litros e oito válvulas com injeção eletrônica multiponto com 110 cv a 5.400 rpm e torque de 17,0 m.kgf a 2.800 rpm. Em junho de 1994, a revista Auto Esporte fez um teste com um Espero DLX equipado com a transmissão automática de quatro velocidades, nas provas o sedã coreano atingiu velocidade máxima de 172 km/h e fez a prova de 0 a 100 km/h em 14,2 segundos.  

A publicação elogiou o conforto interno, principalmente para os ocupantes do banco traseiro que dispunham de apoio de braço central, além de cinto de segurança de três pontos nas extremidades com regulagem de altura. Apesar de contar com o mesmo motor do Chevrolet Vectra e coeficiente aerodinâmico baixo, a revista achou o desempenho abaixo do esperado pelo conjunto mecânico, mas nada que desabonasse o prazer de guiar o Espero.  

Para a linha 1995 é acrescentada a denominação CD ao invés de DLX, além do novo logotipo da Daewoo fixada na dianteira. Nas versões mais simples os carros vinham com calotas, retrovisores no acabamento preto. Nos mais completos a novidade eram as rodas de liga leve raiadas. Internamente os bancos ganharam um novo revestimento.  

O Daewoo Espero foi oferecido no mercado brasileiro até 1998, neste ano ele foi substituído pelo Nubira, sedã desenhado pelo centro de estilo italiano I.DE.A. Além de um visual mais elaborado, o Nubira era equipado com motor de 2 litros de 16 válvulas. 

Em 1998, após a crise financeira asiática, a Daewoo Motor contraiu pesadas dívidas, o que afetou suas operações globais. No Brasil a DM Motors encerrou suas operações no ano de 2000. Em 1999 o Grupo Daewoo foi forçado a vender sua divisão automotiva. Seus ativos foram comprados pela General Motors em 2001, tornando-se uma subsidiária da empresa americana e, em 2011, foi substituída pela GM Coréia.  

COREANO EM RARO ESTADO DE CONSERVAÇÃO 

Daewoo Motors foi a terceira marca sul-coreana a aportar aqui no Brasil, depois de suas compatriotas Hyundai e Kia. O foco da empresa foi unir o estilo europeu à conhecida mecânica General Motors Família II para ganhar mercado, sendo seu carro chefe, o sedã Espero. O modelo logo tornou-se conhecido do grande público e figurou entre os veículos importados mais vendidos. Entretanto a crise econômica asiática, seguida da súbita alta do dólar no Brasil em 1998, atrapalhou o andamento da Daewoo no país, sendo que os últimos modelos foram comercializados até meados dos anos de 2000. 

Hoje os carros são modelos difíceis de se encontrar, ainda mais em bom estado de conservação. Muitos modelos tornaram-se doadores de peças para outros carros. Felizmente nós Do Fundo do Baú, tivemos a sorte de achar um Daewoo Espero CD automático ano 1995 todo original. O carro pertencente ao empresário curitibano Daniel A. Kaplum, 31 anos.  

O empresário nos contou que o Daewoo Espero foi um carro que marcou sua infância, pois quando criança pedia para sua mãe levá-lo até a concessionária que prestava assistência técnica na capital curitibana para poder admirar suas linhas. O sonho de ter um Espero foi concretizado em 2014, quando adquiriu o exemplar que ilustra a reportagem de um colecionador de veículos. “Já conhecia esse Daewoo Espero desde 2007, era de um cliente do meu mecânico, e o antigo dono sabia que eu era um admirador do carro. Ao sinalizar que iria vendê-lo, fiz a proposta de compra e acabei por arrematá-lo”, disse o empresário. 

A princípio Kaplum comprou o Espero para ser seu carro de uso diário, mas acabou por mantê-lo guardado e sair uma vez ou outra para deixa-lo o mais original possível. Nesses cinco anos que o carro está em sua garagem, foram feitos somente revisões preventivas como troca de fluidos, parte de arrefecimento, suspensão e transmissão automática. Não houve dificuldades, uma vez que as peças em sua maioria, são compatíveis com a linha GM. 

Segundo o dono, o ponto fraco do Espero é referente às peças de acabamento que são frágeis e os plásticos acabam por ressecar. “Peças de acabamento, com a idade, creio que por causa do clima tropical, os plásticos ressecam e quebram com facilidade, para achá-las novas é bem difícil, sendo necessário muitas vezes apelar para peças usadas”, ressalta.  

O empresário anuncia que o seu Daewoo Espero está à venda devido à falta de espaço na garagem, uma atitude que ele reluta, mas que terá que fazer. “Infelizmente por falta de espaço em minha garagem, tenho que passar o Espero para frente, mas faço isso com muita dó e caso aconteça, torço muito para que encontre uma pessoa zelosa e saiba manter o carro original”, salienta Daniel.  

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