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NISSAN TiiDA 1.8 16V 2008 com 60 mil km – Falha simples, teve um diagnóstico completo

Motor falhando e marcha lenta irregular, típica falha de cilindro. Veja qual foi o laudo técnico, como foi diagnosticado e a solução do problema

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Por Temório Júnior


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Equipado com o motor 1.8 16V de 126 cavalos de potência, o Tiida chegou ao Brasil em 2007 para concorrer com, Ford Focus, Citroën C4, Peugeot 307, Chevrolet Astra, Fiat Stilo e Volkswagem Golf. O único hatch médio da Nissan, apesar do seu design moderno e jovial, o modelo se despediu do Brasil em meados de 2013.

Encontramos na oficina Bidú Escapamentos, um Nissan Tiida com um defeito que a princípio parecia ser daqueles que se resolve com um simples reparo, mas nesse caso não foi bem assim. O veículo chegou com um sintoma que é bastante conhecido pelos reparadores, falha na aceleração e marcha lenta irregular, típico sintoma de cilindro deficiente ou inoperante. 

O reparador que fez todos os testes e diagnosticou o defeito com precisão, foi o Wesley Alves Silva, 31 anos. O reparador possui 17 anos de experiência, na Bidú Escapamentos ele está há 10 anos. Iniciou sua carreira como curioso; “eu comecei a aprender na roça, em motores estacionários e tratores, aos vinte anos de idade quando já sabia o que realmente queria, fui fazer cursos de especialização no Senai”, conta Wesley. 

Os primeiros testes para identificar o defeito do Nissan Tiida foram realizados com aparelho de diagnóstico que acusou falha de ignição em vários cilindros. Os códigos mostrados pelo equipamento motivaram a checagem das velas e bicos; aqui o reparador já encontra a primeira dificuldade. É necessário remover o coletor de admissão para uma simples checagem das velas e dos bicos. 

Motor 1.8 16V de 126 cavalos

Wesley, da Bidu Escapamentos

Velas desgastadas

Carbonização na admissão do cabeçote

Como já era de se esperar, dada a dificuldade para trocar as velas, constatou-se que as mesmas estavam muito gastas. Com o coletor fora, foi possível visualizar a carbonização presente no cabeçote. Já os bicos, passaram nos testes de estanqueidade e de vazão. Sendo assim, diante do cenário encontrado, o reparador fez o que tinha que fazer, substituiu as velas, limpou toda a carbonização que foi possível, apagou os códigos de falhas e colocou o moto¬r pra funcionar, mas o defeito persistiu.

Considerando a carbonização encontrada no cabeçote, Wesley decidiu fazer o teste de vazamento de cilindros - esse procedimento consiste em instalar um aparelho no lugar das velas, girar o motor até que o pistão esteja em PMS (Ponto Morto Superior) e as válvulas do cilindro que será testado, fechadas. Aplica pressão de ar comprimido e verifica-se há vazamento pelas válvulas, anéis ou junta de cabeçote. Bingo! Havia vazamento de pressão em um dos cilindros. 

Após a remoção do cabeçote foi possível constatar que a causa do problema era justamente a carbonização que impedia a vedação das válvulas. O cabeçote foi para a retífica para fazer a devida descarbonização, assentamento das válvulas e de quebra, a substituição dos retentores de válvulas. 

 Foto 05: Medidor de vazamento de cilindros. (Ferramenta imprescindível para diagnósticos)

O QUE É CARBONIZAÇÃO?

Carbonização é o acúmulo de resíduos provenientes da queima incompleta do combustível. Pode ser por problemas de mau funcionamento do motor, má qualidade do combustível ou modo de operação do veículo. (Trânsito intenso, motor funcionando em marchas baixas, baixa velocidade, percursos curtos - sem que o motor atinja sua temperatura ideal de funcionamento). 

COMO OCORRE?

Com o motor operando nas condições citadas acima, que são consideradas severas, a combustão da gasolina não é completa, parte do carbono não queimado se acumula nas válvulas, pistões e câmaras de combustão, daí surge o nome “carbonização”. 

Quando o motor esquenta e desenvolve altas rotações e percurso relativamente longo, esses resíduos são eliminados pelo sistema de exaustão. Porém, se o carro fica parado em trânsito por muito tempo ou se percorrer percursos menores que 6 km, esses resíduos solidificam e prejudicam o funcionamento do motor.

Válvula carbonizada

Corpo de borboleta carbonizado

Os sintomas são a perda gradativa de potência do motor, aumento do consumo, emissão de gases poluentes acima do normal, detonação (batida de pino) e marcha lenta irregular.

COMO EVITAR?

Bem, levando em consideração os fatores que favorecem a carbonização como, forma de dirigir, trânsito e combustível de má qualidade, me arrisco a dizer que não existe uma receita exeqüível e infalível, mas, existem alguns cuidados que podem atenuar ou retardar o processo. O uso constante de gasolina aditivada é o básico necessário; isso porque o aditivo contido na gasolina nada mais é do que um “detergente”. Ele tem a função de limpar os resíduos e impedir a formação da carbonização. Entretanto, como já estamos cansados de saber, nossos combustíveis não são dos melhores, mesmo aqueles denominados “aditivados” são passíveis de adulterações. Além disso, temos o trânsito das grandes cidades  cada vez mais caótico, que muitas vezes não permite sequer colocar a terceira marcha. 

Para complementar, recomenda-se a prática da manutenção preventiva que além de manter o bom funcionamento do motor, otimiza a queima de combustível, aumenta a autonomia e reduz os níveis de poluentes.

Recado dado, agora vamos voltar à avaliação do Nissan Tiida 1.8 16v. 

Em tempo - o objetivo dessa sessão “Avaliação do reparador” é levar o máximo de informação aos reparadores acerca dos defeitos mais comuns nos veículos avaliados, sempre com dicas técnicas de profissionais que já tiveram experiência com o carro em questão. Contudo, consideramos de suma importância colocar em pauta as experiências vividas pelos responsáveis pela parte administrativa, que nem sempre são relatadas pelos próprios reparadores. 

Para tanto, contamos com a colaboração de Elaine Cristina dos Santos Endo, 50 anos, sócia da Mecânica Kyodai, é uma profissional engajada e super antenada às mudanças tecnológicas, operacionais e culturais, está há 22 anos no segmento. Apesar de não colocar a mão na “graxa”, Elaine conhece muito bem todos os processos da oficina, desde o atendimento, passando pelo diagnóstico, orçamento e por fim a entrega técnica do veículo ao cliente. Atuante também na área de compras, Elaine prefere trabalhar com peças genuínas, “as peças genuínas transmitem confiança e credibilidade, além de devolver as características originais ao veículo”.  No entanto ela relata com certa indignação, que o volume de compras em concessionárias Nissan é de apenas 50%, os outros 50% são adquiridas no mercado independente e importações; e os motivos são: a indisponibilidade de peças a pronta entrega e os preços exorbitantes praticados pelas concessionárias - os mesmos motivos relatados pelos colegas Nélio da Nélio’s Car e Leandro da Bidú Escapamentos.

Elaine nos conta que em uma das suas compras de peças Nissan, o orçamento da concessionária ficou em R$ 12.000,00, as mesmas trazidas de fora do país, chegaram em suas mãos por R$ 6.000,00.

Elaine Cristina dos Santos Endo, sócia da Mecânica Kyodai

Leonardo Mulero Cocenza, 26 anos de idade, é comprador da Bidú Escapamentos há um ano, relata: “normalmente procuro as peças primeiro na concessionária, mas devido à grande dificuldade de encontrá-las à pronta entrega, e também ao custo que na maioria das vezes está totalmente fora da realidade e do alcance dos proprietários, eu acabo tendo que recorrer ao mercado independente. O preço que a Nissan cobra é bem mais caro que as outras marcas, e o tempo médio de espera para algumas peças é de 5 a 10 dias; isso se tiver na fábrica, quando não tem, o tempo é de aproximadamente 30 dias”, completa Leonardo.

Leonardo Mulero Cocenza é comprador da Bidú Escapamentos

Nélio Augusto da Silva Andrade, 43 anos, iniciou na profissão a exemplo do irmão que era especialista em veículos da Volkswagem. Logo depois, entrou numa concessionária Nissan, onde permaneceu por dez anos. “Quando a Renault comprou a Nissan, as concessionárias da Nissan foram fechando, aí eu vi uma oportunidade de abrir a minha própria oficina especializada na marca Nissan”, hoje a Nélio’s Car já tem 15 anos. Nélio atende em média 60 veículos por mês, sendo 90% da marca Nissan. Por ser uma empresa de pequeno porte quem cuida da parte administrativa é ele mesmo.

Nélio da oficina Nélio’s Car

INJEÇÃO ELETRÔNICA

Segundo o técnico Wesley, a carbonização nesse veículo prejudica também os bicos de forma irreversível - “Já peguei casos que a carbonização estava visível na ponta dos bicos. Mesmo após a limpeza por ultra-som a vazão continuava baixa, não teve jeito, foi necessário substituir os bicos, que estavam parcialmente entupidos”, diz Wesley.

Na Mecânica Kyodai, chegou um Tiida ano 2011 1.8 16v, com 30.000 km. A luz de anomalia da injeção eletrônica acesa foi a causa da visita na oficina. Após todos os testes, o técnico e sócio da empresa Raul Issao Endo, 50 anos de idade e 35 anos de experiência, utilizando todo seu conhecimento e o auxílio de equipamento de diagnóstico, detectou falha na primeira sonda lambda. A partir do diagnóstico, entra em ação uma parte do delicado trabalho da Elaine: orçar/encontrar a peça original e passar o orçamento para o cliente. Ao consultar na concessionária teve um susto, passava de R$ 2.000,00. Experiente, Elaine viu que o fabricante da peça original era muito conhecido no mercado brasileiro, um dos líderes de mercado, foi procurar no mercado independente e encontrou a MESMA PEÇA por MUITO MENOS da METADE do preço cobrado pela concessionária. 

Abusos à parte, voltemos às questões técnicas. O reparador Raul ressalta sobre a necessidade de verificar preventivamente os demais itens que podem implicar na queima incorreta do combustível e prejudicar o funcionamento do sensor de oxigênio (sonda lambda), como velas, bobinas, filtros, bicos, pressão e vazão da bomba de combustível, sensores e corpo de borboleta. “Além disso, nesse caso, após todos os reparos, é imprescindível andar com o carro o suficiente para que o módulo da injeção eletrônica faça a adaptação dos novos parâmetros”, alerta Raul. Recomenda-se andar aproximadamente 10 km. 

Raul Issao, da Mecânica Kyodai

ARREFECIMENTO

O técnico Wesley comenta que nesse modelo existem duas válvulas termostáticas, uma no cabeçote e outra no bloco, quando for substituir uma deve trocar a outra também. Reforçando o que esse experiente reparador disse, o especialista Nélio complementa, “esse carro costuma queimar a junta de cabeçote e os motivos nem sempre são os mesmos. Porém, o mais comum é que os reparadores, na maioria das vezes por não saberem da existência da segunda válvula, trocam apenas uma delas; quando o correto, apesar do alto custo que passa de mil reais, é trocar as duas preventivamente a cada 60.000km”.

Cavalete com válvula de controle

Válvula de controle 95ºC (95ºC – 108ºC)

Bomba com válvula de Termostática

Válvula de Termostática 82ºC (82ºC – 95ºC) 

SUSPENSÃO 

De acordo com os reparadores Wesley e Nélio, os defeitos comuns nesse veículo são os batentes dos amortecedores, coxins superiores dos amortecedores e buchas do quadro. O que chama a atenção é que as buchas do quadro dianteiro não são comercializadas pela Nissan, precisa substituir o quadro, que custa R$ 1.693,00. Os reparadores orientam que não adianta colocar a bucha paralela porque não dura nada.

Quadro da suspensão dianteira

Detalhe da bucha do quadro, quebrada

Batentes da haste do amortecedor dianteiro

Bandeja dianteira

Os coxins do motor e do câmbio também são apontados pelos técnicos como peças frágeis, quebram com freqüência.

Tirante do motor, lado direito. (quebrado)

Coxim hidráulico do motor, lado direito. (com tirante montado)

Barra de torção do eixo traseiro

O reparador Nélio relata que no eixo traseiro é comum a quebra da barra de torção, como essa peça é fixa no eixo, é necessário substituir do eixo completo.

FREIOS

Todos os técnicos consultados não encontraram problemas recorrentes nem crônicos, “as manutenções são por desgaste natural”, afirmam eles. No entanto, devido ao maior volume de passagens do veículo na oficina, Nélio pode constatar que, “as lonas de freio (sapatas) desgastam mais rápido que as dos demais carros, aos 30.000 km em muitos casos, já estão em tempo de substituir”, diz ele.

DICAS DE OURO

1 – O técnico Wesley orienta que após efetuar reparos no cabeçote ou no corpo de borboleta, deve ser feita a regulagem da borboleta e reset do sistema de injeção através do aparelho de diagnóstico. E completa: não são todos os aparelhos que fazem esse procedimento. 

2 – O especialista Nélio dá uma dica: quando efetuar algum reparo em que for necessária a remoção do conector do solenoide de pressão da polia variável, deve ter bastante cuidado porque costuma quebrar o fio dentro do plug do sensor. O reparador só vai descobrir o defeito quando ligar o motor e a luz de avaria acender. Se o aparelho de diagnóstico acusar essa válvula, pode trocar direto.

Válvula solenoide de controle da polia variável. Em destaque, local onde costuma quebrar

 2.1 – “Quando queima a junta do cabeçote é comum que o bloco também fique empenado, porque ele também é de alumínio. Nesse caso, há a necessidade de desmontar o motor inteiro para fazer a plaina do bloco”, orienta Nélio.

3 – Elaine, com sua larga experiência, dá uma dica: é importante oferecer e praticar a manutenção preventiva, mas é preciso ter um certo tato na hora de vender o serviço, porque fazer a manutenção preventiva não significa “blindar” o carro. Muitos clientes pensam que após aquela manutenção, o carro nunca mais vai dar defeito. Precisa ser transparente com o cliente, pois existem muitos sensores eletrônicos, não podemos garantir que não vão dar problemas. 

CONCLUSÃO

 Como podemos perceber pelo relato dos profissionais que gentilmente colaboraram com essa matéria, o veículo em questão, sob o ponto de vista técnico, é um bom carro. No entanto, constata-se um equívoco na política de pós-venda adotada pela Nissan ao desconsiderar o cliente da marca que opta pela manutenção na oficina independente.

Principalmente na faixa de produto como o Tiida, mais de 80% dos donos destes carros (logo clientes da Nissan) que optarem por levar seus carros, em seus reparadores de confiança, vão se deparar com esta realidade: peças caras e difíceis de encontrar.

Como muito bem resumiram os profissionais entrevistados, o Tiida pode ser bom tecnicamente, mas na hora da manutenção (pelos problemas apontados na dificuldade e preço da peças) se torna um verdadeiro (e caro) abacaxi.

Na dinâmica de mercado, em que a influência do reparador independente é fundamental para a decisão de um carro novo ou seminovo sobre milhões de pessoas, e a exemplo do que vimos nesta matéria, a Nissan encontra na oficina mecânica independente, milhares de “desfazedores de vendas” para a marca, não por questões subjetivas, mas pela concreta (e negativa) experiência na hora de conseguir peças de reposição. Parece que a Nissan não se deu conta que a prática de preços “abusivos” (na opinião dos reparadores), logística difícil e falta de política comercial das peças de reposição para a oficina independente criam uma porta de entrada para a concorrência e desgaste para a imagem da marca. 

Diante de um reparo de um Nissan com este grau de dificuldade com peças, a situação do reparador junto ao seu cliente se complica, e aí só resta falar mal (com fundamento) do produto. 

O Tiida é mais um exemplo de um bom carro, que teria tudo para fazer sucesso, porém a percepção (amparada em fatos reais como a falta de uma política de peças) faz com que as oficinas independentes, rejeitem o produto, e isso se traduz em dificuldade de ganhar market share, sobre outra marcas que tem uma visão mais pragmática, sobre a convivência da reparação “oficial” composta pelas concessionárias da montadora e a “oficiosa” realizada pelas milhares de oficinas independentes e que são preferidas pelos donos de carros.

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